Entrevista com o Sr. Renato da Silveira Martini , Diretor-Presidente do ITI, instituto de tecnologia da Informação, orgão ligado à Casa Civil da Presidência da República.
Obrigado por estar recebendo o portal Prontuário Eletrônico e se colocar a disposição para responder algumas perguntas sobre o ITI, certificação digital e sua importância para implementação do Prontuário Eletrônico de Pacientes.
Prontuário Eletrônico:
O Sr. pode fazer um breve relato da história da implementação do ITI e do papel do certificado digital no futuro do relacionamento econômico empresarial do país?
Sr. Renato Martini:
A infra-estrutura de chaves públicas no Brasil foi criada de fato e de direito com a MP 2.200 em agosto de 2001. Portanto, ela tem 6 anos de vida, está na sua infância. Nos primeiros anos, o esforço maior foi consolidar operacionalmente a ICP-Brasil, o que foi um grande desafio para Brasil. Depois de 2003 estava claro que nossa tarefa era mostrar ao país que tinhamos uma plataforma plenamente operacional, uma base jurídica dando validade jurídica ao certificado digital, e que bastava agora que ela fosse usada de forma efetiva. Por isso cada vez mais o governo colocou o foco da ICP-Brasil na aplicação. O papel do ITI é e sempre será se natureza técnica (manter os sistemas da AC Raiz, credenciar, auditar, homologar sistemas e equipamentos, etc.) . Mas, foi também progressivamente um evangelizador desta tecnologia.
O certificado digital ICP-Brasil é um insumo no que chamamos desmaterialização de procedimentos, trocar o documento em papel por um documento eletrônico, levando serviços do balcão para a Internet. Quando se faz necessária uma “identificação forte” aparece o papel do certificado. Isso tem trazido profundo impacto de economicidade aos processos: a nota fiscal eletrônica, a digitalização de contratos de câmbio, entre outros exemplos. Agora, desmaterializados, são mais agéis e mais baratos.
Prontuário Eletrônico:
Na sua concepção, por que a certificação digital e seus subprodutos não seduziram muitas categorias profissionais como engenheiros, professores, dentistas etc..
Sr. Renato Martini:
Porque tecnologia leva tempo e não pode ser imposta. O exemplo dos contadores é claro. Como são profissionais focados em aplicações com a certificação digital, e a vida desses profissionais se faz mais fácil com tal ferramenta, o aprendizado foi rápido. Resultado disso é o maravilhoso trabalho da Fenacon e do CFC, que produzirão a carteira profissional do contador em formato digital (um smart card) com um certificado ICP-Brasil. Quem sabe nos próximos anos outras categorias profissionais não encontram utilidade semelhante em suas vidas?
Prontuário Eletrônico:
Como o ITI vê o movimento pelo Open Document Format (ODF). O Sr. acredita que o formato aberto de documentos conjuntamente com o nosso certificado digital pode ser o caminho correto para a construção de Prontuários Eletrônicos para Pacientes de forma mais eficaz?
Sr. Renato Martini:
Um prontuário eletrônico é a sua maneira um documento eletrônico. Para que seja eficiente, e é o que nos interessa, tem que ser baseado em bons padrões tecnológicos e que sejam, – antes de qualquer coisa e para serem bons -, interoperáveis. Não se trata, a meu ver, de um “movimento”, mas sim de um esforço global. O ODF é um desses esforços e se inscreve nesta problemática.
Enfim, a resposta a pergunta deve ser positiva; sem padrões abertos não teremos um sistema de gestão de documentos eletrônicos que seja sadio.
Prontuário Eletrônico:
Existem algumas críticas de membros da comunidade do software livre que conhecem mais a fundo o mundo dos certificados quanto a ter o cpf ou cnpj “exposto” no nosso certificado. Como o Sr. devolve estas críticas?
Sr. Renato Martini:
Nunca associei este debate a grupos. Até porque certificação digital é agnóstica em termos de tecnologia. O sistema ICP-Brasil usa uma suite de padrões abertos e interoperáveis, e pode ser implementado em qualquer plataforma indiferentemente a modelo de licença.
Mas, sobretudo, creio que é um debate ultrapassado, falava-se do tema há uns dois anos atrás, muito influenciados pela cultura alglo-saxã que desconhece uma noção vigorosa de identidade civil…
De minha janela aqui vejo um prédio no Setor Comercial Norte em que o acesso ao mesmo só se dá mediante a mostra de um número de CPF. Fazemos isso tradicionalmente, o que nunca trouxe, ao que saiba, danos a ninguém.
Sem dúvida, no sistema ICP-Brasil nos movemos numa fronteira de muita inovação, e outros temas da certificação digital estão para o país na ordem do dia.
Prontuário Eletrônico;
Em contato com desenvolvedores, todos são unânimes em dizer que o certificado digital ainda está nas esferas mais altas do mundo econômico. O Sr. acredita que o certificado digital beneficiará as camadas mais simples da nossa população quando e com que tipo de aplicativos?
Sr. Renato Martini:
Não colocaria nestes termos. Diria que exatamente a certificação digital hoje no Brasil é uma ferramenta usada sobejamente no domínio da Pessoa jurídica. E tem avançado de forma escalar de grandes empresas para médias empresas. O próximo desafio será chegar a Pessoa natural, o brasileiro de carne e osso, não importando a classe social. É exatamente isso que chamamos popularização da ICP-Brasil. Alguns setores são importantes, destaco o Poder Judiciário e o setor cartorial, registral e notarial (com todas as aplicações características desta área). Outro é o segmento bancário que tem como alvo o “cidadão bancarizado”, aqui a aplicação mais importante é sem dúvida o “home banking“. Com tais setores avançando paulatinamente chegaremos a várias camadas da população.
Prontuário Eletrônico:
Alguns grupos profissionais estão se reunindo para pensar seu futuro, com aplicações baseadas na tecnologia do certificado digital como acontece com o SBIS, Sociedade Brasileira de Informática Médica. Como o ITI vê estas ações? O ITI têm condições de fomentar mais estas aglutinações profissionais?
Sr. Renato Martini:
É um esforço tremendamente positivo. Um segmento só avança se se organiza e pauta a sociedade de seus problemas e angústias. Da mesma forma, pode dialogar com o poder público de forma mais organizada.
Como disse anteriormente, o ITI é um evangelizador do sistema ICP-Brasil como plataforma tecnológica de certificação digital. Todavia, não temos em absoluto a pretensão de aglutinar as categorias, mas sempre que chamados ajudamos e tentamos dar alguma contribuição.
Prontuário Eletrônico:
O governo brasileiro têm incentivado os desenvolvedores de autarquias e instituições a colocarem a disposição da sociedade os softwares por eles criados, sob a licença gpl, como o Cacic, o Invesalius, entre outros aplicativos. Qual foi o papel do ITI na implementação deste processo?
Sr. Renato Martini;
O desenvolvimento do Software Público brasileiro tem se mostrado de grande valia e nosso Instituto tem dado todo o apoio possível, considerando-se que não é um grande produtor de software, nem tampouco gestor de grandes sistemas governamentais. A iniciativa conta hoje com um importante Portal, o Portal do Software Público Brasileiro (www.softwarepublico.gov.br). Ele facilita a implantação de novas ferramentas nos diversos setores administrativos dos estados, promove a integração entre as unidades federativas e oferece um conjunto de serviços públicos para sociedade com base no bem software.